Saúde Mental

O que você faz (ou não faz) contribui para a manutenção de seus problemas e sintomas

23/03/2026 16:35 5 min

Não somos vítimas do acaso. Muito do que fazemos (ou deixamos de fazer) e das nossas decisões contribuem na manutenção dos nossos problemas do cotidiano. Freqüentemente ignoramos necessidades, inicialmente sutis, porém importantes, para a manutenção da nossa saúde e qualidade de vida. A vida agitada, muitos compromissos diários e o estresse fazem com que tais necessidades sejam deixadas de lado, tornando-se um problema a longo prazo.

E como podemos nos prevenir? Como dar ouvidos para as necessidades mais sutis e aparentemente adiáveis no meio de tanta correria? Neste texto, ensinarei um pouco mais sobre Comportamento e sua importância na nossa saúde.

Para a Psicologia Comportamental, comportamento é uma resposta do organismo diante de sua interação com o ambiente. Diante de um estímulo, nosso organismo irá funcionar de acordo com a situação identificada, ou seja, respostas fisiológicas serão emitidas para que possamos lidar com o problema.

Skinner (1953) distinguiu entre dois tipos diferentes de comportamentos: comportamentos respondentes e comportamentos operantes . Comportamentos respondentes são aqueles que ocorrem automaticamente e reflexivamente, como afastar as mãos de uma superfície em alta temperatura ou piscar diante da aproximação de objetos aos olhos. Esses comportamentos independem de aprendizagem e são involuntários.

Comportamentos operantes, por outro lado, são aqueles sob nosso controle consciente. Alguns podem ocorrer espontaneamente e outros propositadamente, mas são as conseqüências dessas ações que influenciam ou não às ocorrências futuras. Nossas ações sobre o meio ambiente e as conseqüências dessa ação tornam-se uma parte importante do processo de aprendizagem. Skinner usou o termo operante para se referir a qualquer “comportamento ativo que atua sobre o meio ambiente para gerar conseqüências”.

Para entender melhor a diferença entre eles e como podemos utilizar tal conhecimento ao nosso favor, veja o seguinte exemplo:

Ao ficar com o estômago vazio, você, inevitavelmente sentirá fome. Essa sensação poderia ser definida como comportamento respondente, pois é uma resposta fisiológica à ausência de alimento no estômago. Ou seja, é uma resposta involuntária á vontade do indivíduo. No entanto, o ato de "comer" é operante, ou seja, há uma alta probabilidade de ocorrer, porém, dependerá de uma série de fatores como "saber buscar o alimento" e poderá concorrer com outras necessidades e decisões do indivíduo.

Para matar a fome, o indivíduo deverá, primeiramente, ter adquirido um repertório comportamental básico, capaz de suprir tal necessidade. Um bebê, por exemplo, terá a sensação de fome, porém, não será capaz de buscar o alimento ou de se alimentar sozinho, pois ainda não adquiriu tal comportamento. Ou ainda, se estou realizando um trabalho importante, na qual não posso parar, provavelmente adiarei o horário de almoço ou posso até decidir em pular tal refeição, pois isto concorre diretamente à tarefa em execução. Ou seja, nesse momento, tal decisão foi "não parar para comer" pois algo "mais importante" concorreu com tal necessidade.

Então, o que acontecerá com a sensação de fome? Ela passará?

O organismo provavelmente reclamará muito, a fome aumentará e se tornará insuportável. Porém, algum tempo depois, o organismo cessa tal "sintoma", que dará lugar a outras sensações, tais como tontura, dor de cabeça, cansaço. Ou seja, a "fome" dará lugar a outros sintomas, que também sinalizam uma necessidade não suprida.

E o comer? Como podemos defini-lo?

O comportamento de comer é operante, ou seja, é voluntário, depende de uma ação do indivíduo. Ou seja, para matar a fome, o indivíduo deve ser capaz de discriminar tal sensação como fome, saber buscar o alimento e ser capaz de escolher entre várias alternativas (vou cozinhar? Sei cozinhar? Vou ao restaurante?) àquela que melhor se adequará à necessidade. Parece algo simples neste exemplo, porém, se compararmos a outras necessidades não tão óbvias, o exercício torna-se ainda mais complexo.

Imagine que a tristeza, a ansiedade, a raiva e outros sentimentos e sintomas também são comportamentos respondentes, assim como a sensação de fome. Entender quais os estímulos do ambiente são capazes de eliciá-lo, como e quando a resposta fisiológica ocorre e em qual intensidade, identificá-la, nomeando-a adequadamente e discriminá-la em cada detalhe possível é de extrema importância para que a ação mais adequada seja tomada (o comportamento operante, o "comer" do nosso exemplo).

A música Comida, da Banda Titãs, de 1987, define em poucas palavras e refrões que as necessidades humanas vão muito além da fome e da sede:

"Você tem sede de quê?

Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte"

"A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor"

Lembre-se: a melhor forma de resolver nossos problemas é compreendendo nossas sensações e  percepções, bem como nossas emoções, pensamentos e comportamentos: como foram aprendidos, como são mantidos (mesmo sendo um comportamento disfuncional, provavelmente ele é reforçado, ou seja, dá "certo" de alguma forma) e em que momento eles ocorrem. É necessário compreender o processo anterior ao problema para que seja possível promover melhores formas de combatê-lo.

 

Psicóloga Márcia Elizabeth S. Romeiro | CRP 06/107472

Márcia é Psicóloga e Psicopedagoga na Seminare Psicologia & Saúde. Atende crianças, adolescentes e adultos.

Especialista em Psicologia Clínica – Terapia Comportamental e Cognitiva pela Universidade de São Paulo – USP,  Formação em Terapia Cognitiva Comportamental  pelo Centro de Estudos em Terapia Cognitiva Comportamental – CETCC e Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Braz Cubas.