Saúde Mental

O homem superior: o que Marco Aurélio e Confúcio ensinam sobre autorresponsabilidade

O despertador toca e você já começa o dia atrasado. No caminho, o trânsito travado. No trabalho, aquele colega que não responde mensagem. Em casa, alguém deixou a louça na pia de novo. Quando você se deita, tem a…

Por Diogo Herminio da Silva, Psicólogo (CRP 06/190323)

28/10/2026 10:48 5 min
O homem superior: o que Marco Aurélio e Confúcio ensinam sobre autorresponsabilidade

O despertador toca e você já começa o dia atrasado. No caminho, o trânsito travado. No trabalho, aquele colega que não responde mensagem. Em casa, alguém deixou a louça na pia de novo. Quando você se deita, tem a sensação de que o dia inteiro foi decidido por outras pessoas.

Ser dono dos próprios atos não é controlar o que acontece. É separar o que está nas suas mãos do que não está, e gastar sua energia no primeiro grupo. Marco Aurélio, um imperador romano, e Confúcio, um professor chinês que viveu séculos antes dele, nunca se encontraram. Mas os dois chegaram perto dessa mesma ideia.

Marco Aurélio: você não controla o trânsito, controla o que faz com ele

Marco Aurélio escrevia um diário para si mesmo. Era o homem mais poderoso do mundo conhecido e, mesmo assim, passava as noites anotando lembretes sobre paciência. Uma ideia volta várias vezes nessas páginas: há coisas que dependem de nós e coisas que não dependem.

A chuva não depende de você. O humor do seu chefe não depende de você. O que você faz nos cinco minutos seguintes, sim.

Parece óbvio, mas repare onde a sua cabeça passa mais tempo. Na fila do banco, a gente não fica pensando no que vai fazer quando chegar a vez. Fica refazendo mentalmente a lentidão do caixa. O estoicismo não pede que você goste da fila. Pede que você note quanto da sua manhã foi entregue a algo que você não ia mudar de jeito nenhum.

Confúcio: o homem superior cobra de si, não dos outros

Confúcio usava uma expressão que costuma ser traduzida como "homem superior". Não é superior aos outros, no sentido de melhor que o vizinho. É alguém que se tornou superior a quem ele mesmo era antes. Essa tradução vem do chinês antigo, de uma época em que só homens liam e escreviam — a ideia vale igual para qualquer pessoa.

E o sinal disso, para Confúcio, é bem concreto: quando algo dá errado, essa pessoa olha primeiro para a própria parte. Quem não amadureceu faz o contrário — procura o culpado do lado de fora.

Já reparou como a segunda opção é mais confortável? Se a culpa é do outro, não tem nada para eu fazer. O preço desse conforto é ficar parado.

Na prática: o que a análise do comportamento vê nessa história

No consultório, a gente ouve muito a frase "eu sou assim". Ela encerra a conversa. E, na maioria das vezes, vem acompanhada de uma queixa sobre alguém.

A leitura que eu uso parte de outro lugar: todo comportamento acontece num contexto e tem consequências. Reclamar também é um comportamento — e ele costuma dar algum retorno. Alívio na hora, companhia de quem reclama junto, a sensação de estar do lado certo. Só não muda nada.

Skinner chamava a atenção para isso: as condições em que vivemos moldam o que fazemos. Mas nós também arrumamos essas condições. Você não escolhe o trânsito; escolhe o horário de sair. Não escolhe o colega; escolhe como responde a ele.

Autorresponsabilidade, nessa leitura, não é culpa. Culpa olha para trás e paralisa. Responsabilidade olha para o próximo passo.

Então, na próxima vez que o dia parecer sequestrado por outras pessoas, experimente uma pergunta só: nesta situação, qual é a parte que é minha?

Pode ser pequena. Quase sempre é. E é por ela que se começa.

Lembre-se

Você não controla o que acontece, mas controla o que faz depois.

Olhar para a própria parte não é se culpar — é recuperar o que você ainda pode mover.

E, se essa conta estiver pesada demais para fazer sozinho, conversar com um psicólogo ajuda a enxergar onde está o seu pedaço.

Perguntas frequentes

O que é autorresponsabilidade?
É reconhecer que, embora nem tudo dependa de você, suas ações e reações dependem. É diferente de culpa: responsabilidade olha para o próximo passo, não para o erro do passado.

Marco Aurélio e Confúcio falam a mesma coisa?
Chegam perto. Os dois ensinam a não desperdiçar energia com o que não se controla e a investir no que se controla. Marco Aurélio foca na calma diante do imprevisível; Confúcio, na maturidade de quem cobra a si mesmo.

Como faço para descobrir qual é a minha parte em uma situação?
Comece perguntando: o que eu fiz? O que eu posso fazer agora? Pode ser algo bem pequeno — um telefonema, uma conversa diferente, uma mudança de horário. Terapia ajuda a enxergar essas partes quando a gente fica cego por raiva ou frustração.

"Nesta situação, qual é a parte que é minha?" — por onde começo?
Literalmente por ela. Escreva a situação, sublinhe o que depende de você e o que não depende. Depois escolha um passo naquilo que depende de você. Pequeno mesmo. Amanhã, novo passo.

E se a maioria das coisas que acontecem não dependerem de mim?
Então você mal controlará 20% do dia. Mas são 20% que fazem toda a diferença. É por lá que começamos.